Artigos e Cronicas

30/07/2018 12:52

Líderes do PT entre a traição e glória

Grande parcela dos mais destacados membros do Diretório Regional petista vem demonstrando um comportamento em que transpiram a covardia e exalam o fisiologismo barato neste que é um dos momentos mais grave que o partido já viveu desde a sua fundação.

Antonio P. Pacheco*

A direção estadual do PT em Mato Grosso está há um passo de entrar para a história. E pode escolher se entrará pela porta dos fundos ou passará pelo portal dos heróis. A escolha parece simples para quem está de fora, não é filiado e desconhece os meandros e bastidores da política partidária petista. A verdade é que escolher entre ser traidor ou guerreiro do povo no PT não é uma missão fácil para esta turma que hoje manda e desmanda na legenda no estado.

Há muita coisa importante em jogo, como por exemplo, a hegemonia no poder burocrático e os privilégios garantidos pelos crachás dos cargos das instâncias partidária e dos órgãos das administrações públicas comandadas pela legenda, seja por força de voto direto conquistado nas urnas, seja por meio de alianças políticas.

É por isso que uma grande parcela dos mais destacados membros do Diretório Regional petista vem demonstrando um comportamento em que transpiram a covardia e exalam o fisiologismo barato neste que é um dos momentos mais grave que o partido já viveu desde a sua fundação.

As perguntas insistentes e sem resposta que as bases militantes e simpatizantes do PT tem feito, ao confrontar a indefinição em que a cúpula mantém o partido em relação a formação de uma chapa majoritária são: por quê tanta resistência de parte dos dirigentes do PT à uma candidatura própria? Quais interesses movem, na verdade, a defesa de uma aliança em tudo prejudicial ao presente e ao futuro partido?

Vale destacar que este é um momento dramático para o PT e para o Brasil, que exige sobretudo, coragem e força de vontade para se enfrentar as duras batalhas cotidianas. Lembremos que este é um momento em que o ex-presidente Lula está amargando o cárcere político após ser condenado sem crime e sem provas por uma Justiça partidária e corrupta, conluiada com uma imprensa monopolizada e oportunista e uma quadrilha de políticos carreiristas e golpistas de direita que assaltou a Presidência da República com o propósito de promover o desmonte de direitos sociais e dos trabalhadores e entregar as riquezas nacionais à estrangeiros.

Não dá para relevar o fato de que este é um momento em que o país ainda sofre as consequências da farsa de um impeachment armado por uma horda de parlamentares criminosos para destituir uma presidenta legitimamente eleita por 54 milhões de brasileiros, rasgando a constituição e deflagrando um caos econômico e social que desfez em dois anos avanços que se construiu com duros sacrifícios em 13 anos. Um momento, tenhamos em mente, em que o mundo assiste estarrecido um ajuntamento de irresponsáveis procuradores da república e um juiz de piso ignorante, parcial e tresloucado, cooptado como agente de um governo e por capitalistas estrangeiros, destruir impunemente os setores de petróleo egás e construção pesada do Brasil sob o manto hipócrita do combate à corrupção. Este é um momento em que vemos recrudescer a brutal luta de classes no país, luta que os governos do PT havia atenuado e assegurado um armistício.

Por isso tudo é estarrecedor vermos figuras de proa do PT mato-grossense como ex-deputado federal Carlos Abicalil, os deputados Valdir Barranco e Saguas Moraes, o prefeito de Juína, Altir Peruzzo, o vereador barra-garcense professor Kiko, entre outros, em nome de um pragmatismo rasteiro, mas nem de longe ingênuo, manobrarem insistentemente para levar o partido à uma aliança com o senador Wellington Fagundes (PR), um dos articuladores do golpe do impeachment da presidenta Dilma Rousseff no Senado da República, representante histórico do agronegócio, da direita chucra mato-grossense e do canalha fisiologismo político-partidário. Isso quando deveriam estar lutando dia e noite para fortalecer ainda mais o PT, para ampliar a adesão social às suas causas e bandeiras e liderando a formação de um verdadeiro levante popular contra as injustiças praticadas contra Lula, Dilma e pela preservação do legado dos governos do PT. Ações que exigem o pleno protagonismo do partido no processo eleitoral e não o acovardamento e recolhimento dos seus generais e capitães.

Diante da realidade posta, as perguntas insistentes e sem resposta que as bases militantes e simpatizantes do PT tem feito, ao confrontar a indefinição em que a cúpula mantém o partido em relação a formação de uma chapa majoritária são: por quê tanta resistência de parte dos dirigentes do PT à uma candidatura própria? Quais interesses movem, na verdade, a defesa de uma aliança em tudo prejudicial ao presente e ao futuro partido, uma aliança que conflita com os interesses da sua base, que fere de morte a garantia de um palanque próprio e consistente para a defesa de Lula e das bandeiras históricas do PT e que nega à um terço dos eleitores de Mato Grosso que querem votar nos candidatos do Lula esta oportunidade?

Assisti as falas pró e contra a definição de uma candidatura própria na plenária de estratégia eleitoral realizada pelo PT no último sábado. Algo só possível porque um petista histórico, o jornalista Enock Cavalcanti, contrariando as proibições, furou a bolha de escuridão com a qual a direção do partido queria encobrir o debate ao gravar e postar nas suas redes sociais os discursos.

O PT em Mato Grosso agora deu para flertar abertamente com o obscurantismo nos debates internos, fechando auditórios na cara da militância e impedindo a imprensa de cobrir debates.

Ouvindo os defensores da aliança com o golpista Wellington Fagundes, ficou evidente porque parte hegemônica da cúpula petista queria que os debates fossem feitos em segredo, com portas fechadas e janelas vedadas. Nitidamente, eles estão com vergonha de si mesmos. Estão com vergonha de suas próprias fraquezas. Seus argumentos são frágeis e denotam o quanto estão com medo de perderem suas posições privilegiadas atuais. Eles temem que a base militante quebre o monopólio das decisões que eles instituíram no partido na última década e meia. Eles sabem que uma candidatura própria agora coloca a militância no comando do processo eleitoral como protagonista principal da história que será escrita a partir de 07 de outubro. Será que conseguirão matar no nascedouro essa renascença do PT mato-grossense?

Para quem tem memória da trajetória do PT em Mato Grosso, é fácil perceber como o momento atual guarda semelhanças geminares com a situação criada nas eleições de 2010, quando uma outra manobra rasteira, articulada por integrantes deste mesmo grupo, acabou desaguando na exclusão da então senadora Serys do partido. Fundadora do PT no estado, eleita e reeleita por vários mandatos como depositária da esperança e porta-voz fidelíssima por mais de 20 anos dos trabalhadores e trabalhadoras deste estado, Serys acabou escanteada, humilhada e forçada a abandonar a legenda após uma disputa interna fratricida, movida mais por ambições pessoais e inveja do que por quaisquer outras razões.

Fato este que, de tão traumático, acelerou o derretimento dos laços entre a base militante e a cúpula burocrática da legenda no estado e culminou, nos dias atuais, com o vexaminoso episódio em que o então deputado Alexandre César, outro iminente integrante da corrente que ainda hoje controla as instâncias burocráticas do PT em Mato Grosso, foi apanhado enchendo os bolsos e pasta com dinheiro vivo e ilegal repassado sabe-se lá a troco de quê, pelo ex-governador Silval Barbosa (ex-PMDB/MDB).

Conhecido,respeitado e admirado exatamente por ser o único grande partido político que prima pela transparência e democracia de suas decisões, o PT em Mato Grosso agora deu para flertar abertamente com o obscurantismo nos debates internos, fechando auditórios na cara da militância e impedindo a imprensa de cobrir debates. Debates que, se interessam e são estratégicos para o próprio partido, são ainda mais relevantes e fundamentais para os eleitores e simpatizantes que não possuem crachá de filiados e nem assentos em cargos de cotas partidárias, mas que depositam no petismo a confiança da defesa do seu presente e do seu futuro como cidadão pleno em seus direitos e liberdades.

Esta será uma semana decisiva para o futuro do PT e principalmente, para o futuro dos seus dirigentes com assento na Comissão Executiva Estadual (CEE-PT). Veremos se a direção petista retificará seu posicionamento, assumindo uma postura de grandeza e honradez condizente com os anseios já manifestos e tornados público pela base militante do partido e tão esperada por Lula, líder fundador da legenda que segue sequestrado pelos golpistas, ou se estes se lançarão à aventura de abraçar os traidores do povo e algozes do Lula e da esperança de um Brasil grande, soberano, justo e desenvolvido para todos, e por consequência, de um Mato Grosso onde a vida dos seus cidadãos valha mais, bem mais que uma mísera saca de soja ou uma arroba de boi.

*Antonio P. Pacheco é jornalista, petista histórico e membro do Coletivo Jornalistas de Luta pela Democracia, Liberdade e Justiça


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