Nacional

INDIOS AMEAÇADOS 28/07/2019 13:58

Indios são assassinados por garimpeiros ilegais no Amapá e Bolsonaro ignora

Em vez de anunciar medidas protetivas aos povos indígenas, Bolsonaro anunciou no sábado que está buscando parceria com americanos para explorar a Amazonia

Felipe Betim*

El País

Indígenas da etnia Wajãpi denunciaram neste sábado que um grupo de garimpeiros assassinou o cacique Emyra Wajãpi, de 68 anos, na última quarta-feira. A morte foi o início de um ataque à aldeia Mariry, que se concretizou depois entre sexta e sábado com a invasão de 50 garimpeiros no local, localizado no oeste do Amapá, segundo explicou ao EL PAÍS Marina Amapari, ativista em contato com os indígenas no município de Pedra Branca, onde fica o território Wajãpi.

A Fundação Nacional do Índio (FUNAI) confirmou a morte e está no local junto com as polícias Federal e Militar para "garantir a integridade dos indígenas e apuração dos fatos", afirmou em nota. O órgão também disse que, "por ora, não há registros de conflito". O Ministério Público Federal (MPF) também está apurando a morte do cacique e as denúncias da invasão.

O presidente Jair Bolsonaro, no entanto, não se manifestou sobre a ação dos garimpeiros ilegais nas terras do povo Wajãpi. Pelo contrário. Em vez de anunciar medidas protetivas imediatas aos índios e seu território, Bolsonaro revelou neste sábado que está em busca de parceiros, especialmente dos norte-americanos, para explorar as áreas indígenas da Amazônia.

Bolsonaro tem afirmado que vai apresentar um projeto para legalizar o garimpo no Pará.  Segundo Bolsonaro, a exploração das reservas minerais em áreas de preservação ambiental e territórios indígenas é a principal razão de sua aproximação com Donald Trump. O plano deve ser facilitado com a indicação de seu filho, Eduardo Bolsonaro, para a embaixada dos Estados Unidos.

O presidente chegou a citar a reserva Ianomami como um dos alvos do seu plano de entrega da Amazônia aos americanos.  "Terra riquíssima. Se junta com a Raposa Serra do Sol, é um absurdo o que temos de minerais ali. Estou procurando o primeiro mundo para explorar essas áreas em parceria e agregando valor. Por isso, a minha aproximação com os Estados Unidos", afirmou Bolsonaro.

Os Wajãpi são alvos de violência de invasores de sua cobiçada reserva que possui muitos minerais valiosos (Fotos:Victor Moryama )

Emboscada

Segundo relatos, o cacique Emyra Wajãpi foi esfaqueado no meio da mata no momento em que se deslocava até sua aldeia, depois de ter ido visitar a filha. O líder indígena possivelmente foi alvo de uma emboscada no meio da mata. Seu corpo foi jogado no rio e encontrado por sua esposa. "Nós não queremos mais a morte das nossas lideranças indígenas. Estamos pedindo socorro para as autoridades competentes do Estado do Amapá", disse um morador da comunidade em vídeo recebido pelo EL PAÍS.

Os indígenas relatam que garimpeiros estão invadindo aldeias durante a noite e agredindo mulheres crianças. Também estão realizando disparos com armas de fogo para intimidar as comunidades locais.

Barreira indígena contra a mineração na Amazônia

O assassinato do cacique Emyra Wajãpi evidenciou mais uma vez que a violência contra os povos indígenas vem se acirrando e repercutiu no mundo político e nas redes sociais.

O compositor Caetano Veloso foi um dos manifestou sua solidariedade nas redes e deu repercussão ao caso.

Já o senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP) está no local acompanhando de perto a atuação das autoridades.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA já manifestou sua preocupação e pediu que as autoridades brasileiras protejam e previnam o território de possíveis violações. "Esse tipo de violência não pode ficar impune", escreveu, por sua vez, a ex-senadora Marina Silva.

O território Wajãpi fica próximo à divisa com o Pará e é lar 1.300 indígenas dessa etnia. Demarcado em 1996 pelo Governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), abrange uma área de 6.000 quilômetros quadrados ricos em ouro, muito cobiçado por garimpeiros e mineradoras. Somente os indígenas possuem autorização para, de forma artesanal, explorar o ouro.

Metade do território está dentro da Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), que o Governo Michel Temer tentou extinguir em setembro de 2017 via decreto presidencial. A reserva abarca 4,6 milhões de hectares de floresta amazônica entre os Estados do Pará e Amapá e representa um empecilho para a atuação empresas mineradoras na região.

Os conflitos pipocam por todos os lados: no último dia 10, por exemplo, o Exército barrou um liderança e cinco estudantes indígenas de entrar no próprio território, na Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas, segundo noticiou a Folha de S. Paulo.

Apesar da proteção do Estado brasileiro, o assédio de garimpeiros, madeireiras e ruralistas são uma constante ameaça aos indígenas que vivem em territórios da Amazônia e da região centro-oeste do país.

Os conflitos nessas áreas parecem ter ganhado novo fôlego com a eleição do ultradireitista Jair Bolsonaro para a Presidência da República em 2018. Ativistas ligados a questão agrária e indígena acreditam que o forte discurso armamentista do presidente, voltado inclusive para setores do campo, também vem encorajando os sangrentos conflitos no interior do país. Além disso, as críticas do presidente e dos militares à demarcação de terras indígenas sempre foi forte.

*Editado com acréscimos pela Editoria de Política Nacional do PE.


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